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CAPÍTULO 7
PSICOLOGIA COLETIVA E DESENVOLVIMENTO ESPIRITUAL

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Seção 1: Psicologia Coletiva

Seção 2: Desenvolvimento Espiritual como Meta Social

 

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Seção 1:

Psicologia Coletiva

 

A sociedade humana pode e deve ter uma estrutura que garanta o movimento coletivo e o crescimento de todos os indivíduos — para a expansão e o desenvolvimento das potencialidades coletivas e individuais. A sociedade, no seu verdadeiro sentido, não é uma mera aglomeração de indivíduos; é muito mais do que isso, pois o que importa é o espírito de coletividade e a unidade social. A psicologia e o vigor de uma sociedade humana dependem essencialmente dos três fatores: A) unidade social, B) segurança e C) paz.

 

UNIDADE SOCIAL:

A unidade social depende dos seguintes fatores-chave e da forma como eles são enfatizados: ideais comuns, ausência de estratificação social (sociedade sem classes), programas sociais coletivos e ausência de pena de morte.

 

Ideais Comuns: Se as pessoas forem inspiradas em ideais comuns, elas se moverão unidas e superarão todas as dificuldades e obstáculos. Sem a inspiração em um ideal comum, os movimentos sociais tornam-se frustrados e desconexos. Muitos grupos sociais —antigos clãs, impérios medievais ou as nações atuais— foram constituídos a partir de ideais e sentimentos comuns, visando à unidade social. Ainda que os ideais comuns sejam positivos, a existência de vários “ismos” baseados nesses sentimentos tem geralmente dividido a humanidade em diferentes grupos hostis. Na sociedade moderna, o patriotismo pelo estado dominador possibilitou o fortalecimento do nacionalismo, do ufanismo, do chauvinismo, do racismo e do imperialismo. Tais sistemas de valores estão se tornando cada vez mais antiquados. As duas guerras mundiais e a arrogância do imperialismo nos mostraram que precisamos ter uma compreensão global e perceber que esta nave Terra está povoada por uma sociedade humana. Para estabelecer uma unidade social cada vez maior, os sentimentos mesquinhos do passado, tais como o “grupismo”, o racismo e o nacionalismo têm, obviamente, que ser superados.

 

O único ideal totalmente abrangente e sintético é a espiritualidade. Somente com um ideal baseado na Entidade Cósmica Infinita poderemos cultivar o verdadeiro sentimento universalista que superará os sentimentos egoístas. Essa é a base emocional para inspirar a sociedade humana a se mover em direção à unidade.

 

Sociedade sem Castas: Os seres humanos têm amor e afeição natural uns pelos outros. Essa tendência ao respeito e à aproximação deve ser fortalecida. A idéia de uma igualdade elementar entre os seres humanos é conhecida em sânscrito como “sama samaja tattva”: princípio da igualdade social. Esse princípio é essencial para a unidade social, devendo, portanto, constituir a base de toda e qualquer sociedade humana.

 

Mesmo numa sociedade ideal, ainda assim haveria diferentes pontos de vista e opiniões, já que “A diversidade é uma lei da natureza”, conforme afirmou P. R. Sarkar. Embora essa diversidade externa aumente a beleza e o vigor da cultura humana, ela não deve ser o pretexto para justificar uma estrutura social que abale os direitos básicos, a unidade e a coesão dos seres humanos. A exacerbação das diferenças e as divisões sociais, através de sentimentos emotivos divisionistas, é prejudicial ao crescimento da sociedade. Isso enfraquece o vigor e a unidade social. Sentimentos de grupo baseados nos conceitos de casta, raça, religião, sexo etc. são produtos de líderes egoístas. As pessoas devem ser educadas e fortalecidas mentalmente para não cair em tais sentimentos.

 

Programas Sociais: Classificam-se como programas sociais os festivais, as comemorações, os encontros etc., ou seja, os eventos em que as pessoas aprendem a se admirar mutuamente. Os programas sociais não só inspiram os sentimentos de coletividade necessários para enfrentar as dificuldades do cotidiano como também servem para expressar as formas mais elevadas de arte e cultura.

 

Ausência de Pena de Morte: É um erro moral da sociedade permitir a condenação de seres humanos à pena de morte. Se os médicos não podem curar um paciente, eles não têm o direito de matá-lo. Uma vez que o criminoso é um desajustado mental e social, a sociedade deve usar todos os seus recursos para reabilitá-lo. Se ela ainda não tem essa capacidade, também não tem o direito de matá-lo. Quanto ao aspecto social dessa condenação, é evidente que cada pessoa executada deixa desesperados seus parentes — marido, mulher, filhos, pais etc. —, que ficam inconformados e com sentimento de vingança. Seu ressentimento e sua dor (havendo ou não erro por parte do condenado) abalará a unidade social.

 

PROUT defende que a educação e a reabilitação devam formar a base da justiça criminal, ao invés de utilizar a punição como vingança e tentativa de controle da criminalidade. (ver Capítulo 6, Seção 4).

 

B) SEGURANÇA:

A segurança econômica e social é o fator-chave para a existência dos seres humanos e para o desenvolvimento pleno de seus potenciais físico, psíquico e espiritual. Mas essa segurança depende de dois fatores: justiça social e disciplina.

 

Justiça Social: Muitas ameaças e incertezas da vida podem ser debeladas a unidade social, apesar da aparente diversidade do mundo. Quando isso for reconhecido e houver esforço para assegurar os requisitos básicos a todos, nós teremos a base do sistema proutista de justiça social. Um grande esforço deve ser feito para acabar com a exploração e as práticas injustas na sociedade. Isso estimulará o bem-estar, a criatividade e a produtividade individual, fazendo com que toda a sociedade seja fortalecida. O sistema econômico proutista está baseado nessa idéia de justiça social.

 

Disciplina: Um código de conduta corretamente elaborado e consensual é muito necessário, na vida individual e coletiva, para solucionar os conflitos pessoais. Todas as sociedades, quaisquer que sejam, possuem códigos sociais, padrões de comportamento, assim como leis e regulamentos. Isso ajuda a criar um ambiente social favorável ao inter-relacionamento respeitoso. A falta de disciplina, tanto na vida social como individual, tem intensificado a degradação social, o individualismo, a ganância e a imoralidade.

 

Tudo isso desgasta o verdadeiro sentido da sociedade — que deve se referir a um movimento uniforme.

 

Uma vez que os recursos físicos são limitados, se for admitido que a ganância e os desejos insaciáveis de seres humanos fiquem desgovernados, sem código de disciplina comum, a sociedade humana se transformará numa sociedade de lobos. Os códigos sociais devem permitir a liberdade de expressão, desde que esta não interfira nos direitos básicos dos outros.

 

Contudo, um código de conduta repressivo, ou inteiramente permissivo, que não leve em conta a psicologia humana, inevitavelmente tem resultado desastroso. A disciplina deve estar em harmonia com a natureza e as aspirações mais elevadas dos seres humanos. Uma disciplina rígida semelhante à disciplina militar, baseada na repressão da natureza humana, nunca perduraria. A repressão moral da era Vitoriana, na Inglaterra, e dos calvinistas ortodoxos resultou no hedonismo dos tempos modernos. Nos antigos países comunistas, somente com a onipresença da polícia secreta podia se assegurar o comportamento moral, tornando a vida individual um pesadelo, e isto finalmente levou à destruição desse sistema social pelo próprio povo.

 

A disciplina social deve ser estabelecida por um código de conduta elaborado em harmonia com a natureza psico-físico-espiritual dos seres humanos e ajustado às necessidades de diferentes faixas etárias e culturas. As pessoas devem aprender a amar a auto-disciplina e a entender que, somente com a ajuda desta, a liberdade na esfera social e individual será alcançada. E, além disso, será fundamental que tenhamos líderes que dêem exemplo à sociedade com a própria conduta e possam inspirar outros a fazer o mesmo. Para o desenvolvimento das capacidades mentais mais elevadas, a auto-disciplina é muito importante.

 

C) PAZ:

As guerras são grandes desgraças que ocorrem na história humana. A sociedade humana prospera na paz e é destruída na guerra. A guerra conduz os seres humanos à luta animalesca pela sobrevivência, estimulando os instintos básicos e causando sofrimento imensurável.

 

Existem dois tipos de paz: a paz sutil, na qual há predominância da unidade social, da justiça e da racionalidade; e a paz estática, na qual predominam a opressão, a supressão e as forças da ignorância e da exploração. Para estabelecer a paz sutil na sociedade humana, as pessoas que desejam o bem-estar social, não devem fugir da luta. Somente através de luta contra as forças destruidoras da paz sutil é que a paz verdadeira será estabelecida. Nesse caso, luta não tem a mesma conotação que guerra.

 

Para estabelecer a paz duradoura, dois fatores são importantes: fazer práticas espirituais com base científica e lutar para dissipar todos os dogmas (ver Capítulo 5, Seção 4). Através das práticas espirituais intuitivas (por exemplo: concentração e meditação), a tendência ao egoísmo e à busca desenfreada por coisas materiais é controlada, permitindo o desenvolvimento de capacidades mentais e espirituais elevadas e fazendo com que os choques da luta pelas necessidades materiais sejam minimizados.

 

A mente e os sentimentos se expandem quando as pessoas desenvolvem seus potenciais. Através da luta contra as superstições irracionais e os dogmas, os seres humanos se estabelecem na racionalidade.

 

Muitos dogmas causaram derramamento de sangue no passado. Tomemos como exemplo o confronto entre católicos e protestantes que levou por 30 anos (de 1618 a 1648) a maior parte da Europa Central à destruição. O dogma da superioridade racial e cultural levou os imigrantes europeus a impor no continente americano o sentimento de brutalidade, culminando no sistema de escravidão dos africanos e no massacre dos índios. A racionalidade, por outro lado, estimula a discussão ideológica e a luta pela justiça, mas abomina a crueldade e a destruição das guerras.

 

A conquista da paz sutil — para inspirar a expansão mental e infundir o universalismo no coração de todos — só ocorrerá quando os seguintes fatores forem cultivados (tudo isso será discutido em detalhe nos capítulos subsequentes):

 

1. Devemos nos esforçar por uma filosofia comum de vida. Isto não significa criar uma série de dogmas nem acabar com as diferenças ideológicas, mas sim aceitar o universalismo baseado na racionalidade.

2. Devemos lutar por uma constituição comum a todos os povos e nações e, especialmente, garantir o cumprimento da Declaração Universal de Direitos Humanos. Essa constituição deverá agregar o que há de melhor em todas as outras e ser aprovada por todas as nações. Isto ajudará a proteger o direito das minorias, e será o primeiro passo para estabelecer uma estrutura governante com poderes legislativos.

3. Devemos nos esforçar por um código penal comum a todas as nações, baseado mais na aceitação dos direitos humanos do que nas noções regionais de moralismo.

4. Deve haver produção e suprimento das necessidades básicas da vida e poder de compra dos salários para adquiri-las. Isto proporcionará segurança existencial a todos e liberará a tremenda energia psíquica retida devido ao medo e a insegurança da luta pelas necessidades básicas. Essa energia mental refletirá no bem-estar e no desenvolvimento da sociedade e dos indivíduos, em todas as esferas da vida. Dessa forma, será dado um grande salto na qualidade de vida.

 

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Seção 2:

Desenvolvimento Espiritual como Meta Social

 

Onde há movimento deve haver também meta. Sem uma meta, não há progresso, nem direção certa. A inspiração para o movimento perene da sociedade humana é reconhecida, pessoalmente, como o estado de equilíbrio, paz e felicidade (anandam).

 

Tal estado está além da teoria social. Mas é esse estado de realização na vida pessoal que inspira comportamentos de moralidade e respeito a todos os seres vivos. Quando os seis fatores para o progresso social estão presentes (Apêndice D), num estado equilibrado, então, o movimento social se dá em direção a essa meta espiritual. As aspirações internas da mente humana terão um ambiente social favorável à inspiração e à realização plena, desenvolvendo, assim, uma visão social.

 

Quando a realização do estado de bem-aventurança é tomada como uma base para a existência da boa vontade e do comportamento benevolente para com toda a criação, o amor humanístico e o sentimento de família são expandidos para formar uma nova visão: a do neo-humanismo. Essa é a visão social de PROUT. Na esfera social, reconhece-se como um direito supremo o valor existencial de todos os seres vivos. Os objetos inanimados também têm uma expressão limitada da Consciência Cósmica. A aceitação do valor intrínseco de cada entidade deve ser reconhecida como a base de uma sociedade verdadeiramente progressista.

 

Em nossa interação com o meio ambiente devemos reconhecer que cada expressão, no maravilhoso caleidoscópio da criação, tem um valor existencial. Não podemos continuar a ver a Terra com olhares famintos, considerando só o valor utilitário de cada ser, com vistas à satisfação de nossos desejos infindáveis. A visão gananciosa nos impede de ver a beleza e a harmonia do mundo que nos cerca. Mas assim que compreendermos e corrigirmos nossos erros do passado, perceberemos que este mundo tem o potencial de se tornar um paraíso para a humanidade, os animais e as plantas.

 

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Leitura adicional:

PROUT in a Nutshell: A parte 4 dessa série contém um importante artigo de PROUT. Na parte 3, um trecho é dedicado à discussão de unidade social, segurança e paz. 

 

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