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CAPÍTULO 6
SOLUÇÕES Criativas DE PROUT

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Seção 1: Sociedades Auto-suficientes e Independentes (Samajas)

Seção 2: Planos de Desenvolvimento Multidimensional

Seção 3: Unidades Mestras

Seção 4: Soluções para a Criminalidade, o Crescimento Demográfico, a Destruição Ambiental e a Poluição

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Seção 1:

Sociedades Auto-suficientes e Independentes (Samajas)

 

O termo em sânscrito que designa sociedade é samaj, que quer dizer um agrupamento de pessoas com um objetivo comum, movendo-se unidas em direção ao progresso e ao desenvolvimento coletivo. Na prática, PROUT define samaj como uma unidade socioeconômica formada com base no potencial econômico, nos problemas locais e na similaridade geográfica, cultural e histórica de uma região.

 

O fortalecimento da cultura local é um requisito para que a sociedade se torne saudável e próspera. Essencialmente, samaj é um agrupamento socioeconômico com as seguintes características: população com idioma, cultura e história comum; economia descentralizada progressista, baseada na democracia econômica; vida cultural e intelectual florescente; atmosfera geral de igualdade social; espírito de se desenvolver coletivamente e lideranças com força moral. A idéia de formar samajas tem o intuito de aplicar PROUT nas esferas socioeconômica, sociopolítica e sociocultural, de forma prática.

 

De modo geral, as fronteiras entre as nações ou os estados foram constituídas de acordo com as diretrizes políticas. Logo, quando se definir os critérios para a formação de unidades de samaj, as fronteiras não serão consideradas rigorosamente. Na medida em que houver uma confrontação da exploração capitalista, a formação de samajas será uma conseqüência natural e inevitável.

Existem muitos movimentos em prol da independência regional, tanto econômica como cultural: o movimento pela independência da porção francesa, no Quebec, Canadá; a insurgência “zapatista”, no México, e dos nativos maias, na Guatemala; o movimento republicano irlandês; diversas revoluções na África; rebelião dos curdos, no Iraque, e muitos outros. PROUT cita esses movimentos como exemplos de luta contra a opressão de exploradores, mas não apóia as ações violentas e desumanas que caracterizam a maioria deles.

 

Muitas das fronteiras políticas existentes foram estabelecidas para permitir que os colonizadores dividissem a região e a conquistassem mais facilmente. O primeiro impacto foi a supressão da língua e dos costumes. Uma das técnicas básicas dos exploradores capitalistas é dividir o povo e torná-lo fragilizado mentalmente, impondo o idioma, inculcando complexos de inferioridade, estabelecendo divisões regionais e criando rejeição religiosa, para criar conflitos internos.

 

Tomando-se como exemplo a Grã-Bretanha, podemos ver que diversos povos, com cultura e idioma próprios, foram subjugados, tanto cultural quanto economicamente. Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte são exemplos de unidades socioeconômicas potenciais e futuras áreas de samaj. Cada uma dessas áreas sofre com a dependência econômica e política da Inglaterra e com a supressão do idioma e da cultura local. Na Índia, o estado de Bengala foi dividido pelo império Britânico e, posteriormente, pelo governo indiano independente. Tudo isso foi feito com o objetivo de desintegrar e explorar economicamente um povo próspero e culturalmente forte. Em quase todo o planeta, esse mesmo fenômeno pode ser observado. A proposta de PROUT é fortalecer a cultura e economia local e integrar as nações por uma Constituição Mundial e uma Declaração de Direitos Universais.

 

Um agrupamento de vários samajas adjacentes poderá constituir uma Federação de Samajas. PROUT não apóia o regionalismo ou o nacionalismo exacerbado ou vulgar. Pelo contrário, pode-se dizer que samaj é a unidade básica de uma cultura global forte. Muitos relacionamentos entre nações, no passado e no presente, foram ou são caracterizados por situações de colonialismo, imperialismo e outros tipos de exploração. PROUT promove o intercâmbio de diversas culturas, fortalecendo cada uma delas na sua origem. Quanto mais as culturas interagirem, tanto mais os seres humanos se desenvolverão. As pessoas devem ter a liberdade de escolher o país em que querem viver, desde que unam seus interesses econômicos aos interesses locais.

 

O propósito de formar unidades socioculturais e socioeconômicas é debelar a exploração, e não estimular tendências divisoras. Há muitos indícios de movimentos de samaj por todo o mundo; e, na medida em que os defeitos do capitalismo e do comunismo ficarem evidentes e a consciência social se desenvolver, certamente esses movimentos terão maior magnitude.

 

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Seção 2:

Planos de Desenvolvimento Multidimensional

 

De acordo com PROUT, é necessário prestar assistência econômica e fazer planos de desenvolvimento multidimensional de curto prazo, para os casos urgentes. Existe mais de um bilhão de pessoas que passam fome no mundo, e por isso deve haver suprimento imediato de alimentos para os países ou as regiões com população subnutrida. A causa desse problema é a má distribuição de renda. A democracia econômica, a descentralização e o fim do imperialismo são medidas que demandam muito tempo, mas a escassez de alimento em algumas regiões deve ser solucionada urgentemente. O excedente de alimento dos países desenvolvidos poderia facilmente suprir as necessidades das nações subdesenvolvidas se houvesse interesse nesse sentido.

 

Planos de desenvolvimento multidimensional devem ser direcionados para as áreas mais pobres de um país, visando elevar de imediato o padrão de vida da população local e promover o desenvolvimento geral por todo o mundo. Tais programas podem incluir assistência permanente e temporária e elevar o nível de educação das classes pobres.

 

Devido ao crescimento econômico desigual em diversos países, faz-se necessário prestar esse serviço, mas eles não devem ser controlados por partidos políticos. De acordo com o local, o mais urgente pode ser o suprimento de alimento a preços módicos, mas também pode ser necessário providenciar o fornecimento de roupa, remédio, material escolar etc. Nós podemos observar que, em muitos países, a maioria das pessoas pobres é analfabeta. Onde há essa deficiência, programas de alfabetização devem ser iniciados, como a primeira etapa de um plano de desenvolvimento.

 

Exemplos de programas assistenciais, no Brasil, são as campanhas da Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida, iniciadas pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Elas mobilizaram cerca de 50.000 pessoas organizadas em comitês locais, distribuídos pelo país. Na campanha “Natal Sem Fome 97”, a Ação da Cidadania distribuiu 100 mil cestas básicas para famílias carentes. Além de distribuir alimentos, a campanha trabalha muito a questão da cidadania, da conscientização e do espírito de coletividade.

 

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Seção 3:

Unidades Mestras

 

PROUT também apóia projetos de comunidades rurais que sejam modelo de desenvolvimento integrado e ecológico. Essas áreas destinadas à aplicação prática dos princípios de PROUT são chamadas de “Unidades Mestras”. Estimulando o desenvolvimento da agricultura e de pequenas indústrias, as Unidades Mestras expandirão sua atuação, de modo que possam atender as diversas necessidades humanas, como a educação, o emprego, a cultura, a espiritualidade etc.

 

A agricultura orgânica, a utilização de técnicas modernas de cultivo e o desenvolvimento de pequenas indústrias que utilizem as matérias-primas locais são projetos essenciais. Centros médicos e hospitais, que incluam práticas de medicina holística, e projetos para a construção de casas populares são também importantes. Uma outra atividade desenvolvida nas Unidades Mestras é o ensino com uma abordagem holística e neo-humanista.

 

As Unidades Mestras incorporam uma variedade de projetos econômicos e sociais. Alguns exemplos de projetos a serem desenvolvidos nas Unidades Mestras são: moinhos; padarias; bancos de sementes; centros de produção de sementes e mudas para a população local; cultura do bicho-da-seda e tecelagem da seda; biodigestores, para a produção de gás natural; indústrias de laticínios; apicultura; centros de treinamento e pesquisas; e manutenção de reservas florestais.

 

Por seu empenho para melhorar a ecologia e a comunidade, as Unidades Mestras constituem projetos-piloto de uma vida social futura, que garantirão as necessidades físicas, mentais e espirituais do indivíduo e preservarão o equilíbrio ecológico da flora e da fauna. Atualmente, existem Unidades Mestras em processo embrionário nas proximidades dos municípios de Juiz de Fora (MG), Tatuí (SP) e Porto Alegre (RS).

 

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Seção 4:

Soluções para a Criminalidade, o Crescimento Demográfico, a Destruição Ambiental e a Poluição

 

PROUT aborda tais problemas de forma criativa e integrada. Todos esses problemas estão associados a um contexto social, portanto, é preciso combater suas causas.

 

Crime e Justiça

O conceito de justiça varia de acordo com a cultura, a época e o desenvolvimento local. A concepção comum de justiça é a de que deve haver uma punição justa para cada crime. Este é um conceito oriundo de uma sociedade mercantil — o de troca do mal sofrido por uma pena que compense esse mal. Mas isso é um processo relativo. O que é justiça numa época, ou numa determinada sociedade, pode não constituir justiça em outra. PROUT defende a recuperação do criminoso, em vez da punição. Como seres humanos, a nossa capacidade de julgamento é limitada e passível de erro. Por isso, não deveríamos enfocar a punição, mas sim a recuperação dos criminosos. A justiça em PROUT consiste em um código de medidas corretivas. (Se houver exemplos nos livros de Bábá, enriquecer com exemplos. tipo trabalhos forçados etc.)

 

Num julgamento, há sempre margem de erro. Não há como constatar a veracidade dos testemunhos. A acusação deve investigar e apresentar as provas. É muito perigoso julgar apenas com base na interpretação dos advogados.

 

Os criminosos não devem ser classificados em uma mesma categoria, pois há diversos motivos que levam a pessoa a cometer crimes. A teoria proutista classifica os criminosos em cinco categorias. Em primeiro lugar, há o criminoso por instinto — geralmente, uma pessoa que tem prazer em cometer pequenos delitos. Apesar de sua forte tendência ao delito, esse tipo de criminoso não comete faltas graves nem é de difícil reabilitação.

 

A segunda categoria é a do criminoso por hábito. Esse pode ou não ser inteligente, mas comete crimes inteligentemente elaborados e em geral revela crueldade e incapacidade de compaixão. Ele pode ter comportamento criminoso habitual e possuir moral baixa. No entanto, por meio de educação apropriada, ele demonstra capacidade de recuperação.

 

A terceira categoria é a da pessoa que se torna criminosa por imposição do ambiente. A pressão de amigos ou familiares é a causa mais comum desse tipo de criminoso. Em geral, os pais depravados passam suas tendências para os filhos. Ao lidar com essas pessoas, é importante descobrir de onde vem a má influência, para poder lidar com o caso. As pessoas que se enquadram nessa categoria tendem a se degenerar quando postas em prisões com criminosos por hábito.

 

O criminoso por necessidade forma a quarta categoria. A maior parte dos crimes ocorridos no mundo é cometida por pessoas que não tiveram acesso às necessidades básicas da vida. No sistema PROUT, uma vez que a sociedade garantirá as necessidades básicas da vida, esse tipo de criminoso praticamente deixará de existir. As pessoas que se enquadram nessa categoria, ao invés de roubar, deveriam exercer pressões sociais para forçar mudanças no padrão de vida. A sociedade não tem o direito de condenar comportamentos desse gênero, já que ela é a própria causadora.

 

A quinta e última categoria de criminoso é de pessoas que cometem crime por decisão momentânea. Essa é uma condição temporária de desequilíbrio mental, que pode ser refeita, como no caso de crimes passionais ou de cleptomaníacos. A reabilitação mental desse tipo de criminoso seria mais eficaz do que a prisão.

 

Ao invés de mandar os criminosos para a prisão, onde eles se tornam brutalizados e aprendem novas técnicas criminosas, PROUT defende a criação de Centros de Reabilitação, onde psicólogos, sociólogos e outros profissionais possam trabalhar juntos para curar as tendências congênitas dos criminosos e educá-los de forma apropriada.

 

Superpopulação

Dois fatores devem ser considerados quando falamos sobre a questão do crescimento populacional: a disponibilidade de recursos e a disponibilidade de espaço. Apesar de o planeta ser grande e ter recursos suficientes para atender as necessidades alimentares de todos os seus habitantes, existem milhões de pessoas sem alimento porque há enormes desperdícios, além de faltar planejamento, coordenação e distribuição apropriada. Se a área habitável deste planeta fosse utilizada apropriadamente, haveria espaço para todos os seres humanos e todas as espécies.

 

De acordo com PROUT, existem quatro fatores que podem levar a um crescimento populacional de forma natural.

Democracia econômica, para que as pessoas tenham acesso às necessidades alimentares.

Assistência médica, de modo que as pessoas possam se manter saudáveis.

Educação, para melhorar o nível intelectual da humanidade.

Tanto quanto possível, as pessoas devem estar livres de preocupações desnecessárias e estresse mental.

 

Se todas essas medidas forem adotadas, o crescimento populacional ocorrerá sem grandes problemas. Em qualquer país, quando o padrão de vida do povo aumenta, o crescimento populacional diminui, independentemente das crenças religiosas e de outros fatores culturais locais. Em países subdesenvolvidos, como a China e a Índia, e também em países desenvolvidos com grande número de pessoas pobres, como os Estados Unidos, o crescimento populacional está aumentando. Em países como a Suíça, a França e os Países Escandinavos, o crescimento populacional é estável, devido às boas condições financeiras da população, sendo que, às vezes, esse crescimento é negativo.

 

A tecnologia agrícola tem dado grandes passos para que o planeta, um vez administrado apropriadamente, se torne capaz de atender as necessidades de sua população. A idéia de que o mundo corre o risco de se tornar superpovoado está sendo utilizada para defender os interesses de certos grupos, para confundir e explorar as pessoas, e para desviar a atenção de assuntos como a exploração e a injustiça econômica.

 

Poluição

Pode-se dizer com bastante segurança que os interesses financeiros são os maiores responsáveis pela destruição ambiental. A maioria das novas tecnologias e dos avanços científicos cria efeitos danosos ao meio ambiente, que levam tempo para serem notados e eliminados. Os processos corretivos são caros e diminuem o lucro das indústrias, resultando em forte oposição à implementação de medidas de proteção ao meio ambiente.

 

São as grandes corporações que controlam a maioria dos recursos e o progresso da ciência. A pesquisa científica independente, que visa resolver os problemas ecológicos, nem sempre consegue financiamento, especialmente se vai de encontro aos interesses das grandes indústrias. Por exemplo, a pesquisa de combustível não-fóssil sem dúvida continua existindo, porém com recursos ínfimos em relação ao que se gasta com a exploração do petróleo. Destina-se algum recurso a fontes alternativas de energia em geral — solar, eólica, biogás etc. — porém em escala muito menor do que o que se destina à energia nuclear.

 

A pesquisa científica não deve ser determinada pela perspectiva de lucro. PROUT propõe que as indústrias estratégicas e de larga escala (transporte, comunicação, energia, mineração etc.) sejam controladas pelo governo local e funcionem sem visar ao lucro. A pesquisa científica não se sujeitará aos interesses das grandes corporações. Os recursos locais, tanto naturais como sintéticos, serão utilizados para desenvolver a indústria local. As indústrias poluentes devem bancar a restauração do meio ambiente. Nos cálculo dos custos totais de produção devem estar incluídas as despesas necessárias para a recuperação ambiental e social.

 

Por exemplo, do ponto de vista social, a indústria de caminhões é antieconômica, pois não leva em conta os seguintes fatores: manutenção das estradas; impacto ambiental; diminuição das reservas de petróleo; danos à saúde causados pela poluição ambiental; trânsito; acidentes e o estresse mental causado aos motoristas de caminhão e suas famílias. Considerando todos esses aspectos, conclui-se que o sistema ferroviário é muito melhor que o sistema rodoviário.

 

O conceito de custo social está inteiramente relacionado com a idéia de desenvolvimento sustentável. Na agricultura, os benefícios de curto prazo obtidos com o uso de agrotóxicos não compensam os prejuízos causados a longo prazo. A poluição de pesticidas e fertilizantes químicos pode ser reduzida com a descentralização da agricultura e o uso de técnicas agrícolas integradas (ver Capítulo 3). A pesquisa agrícola deveria se preocupar com o desenvolvimento sustentável, a qualidade do produto e a eficiência. Pesquisas recentes comprovaram que o uso de técnicas naturais aumenta a produção, além de melhorar o sabor e o valor nutritivo dos alimentos. (documentar a origem dessa pesquisa, se possível... ...)

 

Para assegurar o desenvolvimento econômico sustentável, tudo que deteriora a capacidade de regeneração das reservas naturais e afeta a saúde dos seres humanos e de outros seres deve ser evitado. Mas o caminho da chamada economia global é exatamente o oposto. No sistema capitalista, os ganhos de curto prazo são mais importantes do que qualquer consideração sobre o futuro. Tem sido anunciado por cientistas em conferências internacionais, como no encontro chamado Eco 92, no Rio de Janeiro, que a economia global está destruindo o meio ambiente numa velocidade mil vezes maior do que ele se pode restaurar.

 

Foi previsto que, se a destruição ambiental continuar na velocidade atual, ela acabará com a camada de ozônio, o ar puro, o solo fértil, as águas potáveis e as florestas em aproximadamente 50 anos. Então, é uma questão de vida ou morte reduzir o poder de decisão econômica das grandes corporações. Elas têm ignorado quase sempre a questão do bem-estar coletivo e continuarão a fazer assim, a menos que o povo detenha seu poder de influência.

 

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Leituras adicionais:

Discussões dos tópicos acima poderão ser encontradas em literatura sobre PROUT. Na série “PROUT in a Nutshell”, encontram-se várias referências a samajas. Para discussões sobre o crime e a justiça, pode-se consultar “Human Society, Part One”. Um artigo sobre o crescimento e o controle populacional é encontrado em “Democracia Econômica”.

 

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 Capítulo 7