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CAPíTULO 1
CICLOS SOCIAIS

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Seção 1: As Classes Sociais e as Quatro Varnas
Seção 2: A Humanidade e os Ciclos Sociais
Seção 3: Filosofia dos Ciclos Sociais
Seção 4: Uma Nova Visão da História

Seção 5: Os Sadvipras e a Síntese Social Permanente

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Seção 1:

As Classes Sociais e as Quatro Varnas

 

Conforme o ser humano atua e marca sua presença na sociedade, podemos identificar quatro categorias básicas da mente humana. Essas categorias são definidas como classes e são chamadas de varnas, em sânscrito, que significa “cores”, literalmente. As classes são simbolicamente definidas como “cores psíquicas”, de acordo com as tendências mentais.

 

O conceito de varnas é importante para uma análise da dinâmica social das classes. Esse modelo se destina mais apropriadamente à análise social do que ao estudo da psicologia e do comportamento do indivíduo, que se baseia em leis mais complexas. Por isso, é importante não aplicá-lo de forma simplista e rígida aos indivíduos.

 

O conceito de varnas nos conduz a uma nova teoria da dinâmica social e a uma análise histórica singular. Essa teoria assegura que, em cada era, uma determinada varna influencia a sociedade e a psicologia coletiva, garantindo assim o domínio sobre as demais classes. Além disso, é demonstrado que as transformações sociais ocorrem em ciclos. Esses dois aspectos formam a teoria dos ciclos sociais, fundamentada na mudança cíclica da sociedade, uma vez que os valores prevalecentes e o domínio na sociedade mudam de acordo com a varna predominante a cada época. As quatro classes são: shudra (trabalhadores), ksattriya (guerreiros e militares, pronuncia-se cátria), vipra (intelectuais e clero), e vaeshya (empresários comerciantes, industriais e financistas).

 

Primeiro examinaremos os quatro grupos e subseqüentemente faremos uma análise histórica resumida, utilizando essa perspectiva.

 

Shudra (Trabalhador)

A primeira classe apresenta as características de uma mente humana menos desenvolvida do que as outras classes, uma vez que está condicionada ao mundo material e social e aos instintos básicos. A satisfação dos instintos básicos e a preocupação com a subsistência são as prioridades dessa classe. As pessoas essa mentalidade são chamadas de shudras. A mente do shudra é representada pela cor negra, que simboliza a preocupação com o mundo objetivo. (COMPLETAR A EXPLICAÇÃO DAS CORES PARA AS OUTRAS CLASSES OU RETIRAR ESTA). Os shudras não têm ideais muito sofisticados nem desenvolvem cultura refinada. É claro que a mentalidade shudra da era moderna é mais desenvolvida do que a mentalidade shudra das eras antigas. Essas categorias são relativas, pois os shudras, por terem poucas aspirações ou pouco dinamismo mental, vivem de acordo com as tendências predominantes na psicologia coletiva. A psicologia shudra é essencialmente a psicologia das massas, e requer o direcionamento e a inspiração daqueles com mentes mais desenvolvidas, daqueles que determinam a direção e o rumo da psicologia coletiva.

 

No nível individual, todas as pessoas possuem uma combinação potencial de todas as quatro varnas — embora uma psicologia seja mais predominante que a outra. Isso que dizer que, se a pessoa se esforçar pelo seu desenvolvimento psíquico, ela poderá desenvolver qualquer uma das tendências, ou até mesmo as quatro tendências simultaneamente.

 

Ksattriya (Guerreiro)

A segunda varna é constituída pelas pessoas com mentalidade guerreira, espírito de luta, bravura e que aceitam o desafio de lutar. Elas são denominadas ksattriyas. A mente ksattriya busca, de forma rudimentar, estabelecer o domínio ou o controle do mundo material através da força física. Num sentido positivo, uma sociedade dominada por ksattriyas tende a dar grande ênfase aos valores sociais, tais como a honra, a disciplina, o serviço; e num sentido potencialmente negativo tende a enfatizar a autoridade, a crueldade e a competição. As antigas civilizações romana, grega (dos helênicos) e árabe-muçulmana e várias ditaduras militares e comunistas são exemplos de sociedades dominadas pelos ksattriyas.

 

Vipra (Intelectual)

Pessoas com intelecto desenvolvido e que procuram ter influência nos rumos da sociedade, usando suas faculdades mentais, constituem essa terceira classe, chamada de vipra.

 

A característica mais marcante da classe vipra é a busca de realizações nos campos da ciência, da religião e da cultura. As eras vipras são caracterizadas pelas regras sociais e políticas dos intelectuais, ministros ou clero (seja na monarquia, democracia, teocracia, etc). Nesta, os propósitos religiosos, culturais ou intelectuais dominam a psicologia coletiva.

 

As sociedades budista e hindu da Índia antiga, a Europa da Idade Média, dominada pela Igreja Católica, e algumas nações islâmicas fundamentalistas da atualidade são, essencialmente, exemplos de sociedades vipras.

 

Vaeshya (Negociantes)

A quarta varna ou classe social é a dos vaeshyas — a classe de comerciantes, empresários ou financistas. Esta classe tem grande capacidade de administrar e acumular recursos. A Idade Moderna, que foi marcada pela Revolução Industrial, continua a ser dominada pela psicologia dessa classe. Assim como os guerreiros dominaram a Idade Antiga e os intelectuais dominaram a Idade Média, os mercantilistas dominam a Idade Moderna.

 

O começo de qualquer era é marcado por grande dinamismo em todos os níveis: político, cultural, econômico etc. Isso ocorre porque os novos administradores libertam o povo da opressão infligida pela antiga ordem. Então, dá-se início a uma era promissora, enquanto a nova classe solidifica seu controle sobre a sociedade. Com o passar do tempo, entretanto, o declínio social ocorre, na medida em que a classe dominante se empenha para aumentar seu poder e sua riqueza.

 

Dessa forma, a classe mercantilista dos vaeshyas infundiu grande dinamismo à antiga sociedade, que sofria com a dominação de uma classe de vipras corrompidos (intelectuais, religiosos etc.) e com o sistema feudal imposto pelo Império Romano. A era promissora da história moderna continua sendo, provavelmente, o período do domínio norte-americano. Agora, entretanto, o mercantilismo começa a decair, visto que a classe dominante procura expandir sua riqueza e o seu poder na área governamental, em detrimento do poder de compra de um grande número de pessoas, sendo que a maioria não consegue obter nem mesmo suas necessidades básicas.

 

Nesse declínio, trabalhadores, guerreiros e intelectuais são cada vez mais subjugados à vontade dos capitalistas, que controlam os salários e o padrão de vida das outras classes com “mão de ferro”. A política é também manipulada pelos capitalistas, pois eles têm o verdadeiro poder financeiro. Atualmente, todas as sociedades capitalistas do mundo estão nessa condição. A maior evidência disso está na absoluta dependência dos líderes políticos em relação aos capitalistas, que financiam suas campanhas eleitorais. Apesar de a democracia constitucional ter sido um aspecto positivo de desenvolvimento na era mercantilista, na prática, hoje em dia, ela se tornou uma ferramenta de controle e dominação dos gigantes financeiros sobre as economias nacionais dos países em geral, em especial dos países do Terceiro Mundo.

 

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Seção 2:

A Humanidade e os Ciclos Sociais

 

A teoria dos ciclos sociais professa que as eras históricas evoluem na seguinte seqüência: shúdra (dos trabalhadores braçais), ksattriya (guerreira), vipran (intelectual) e vaeshyan (mercantilista). Em seguida, um novo ciclo se inicia. Pode-se alegar que esse panorama cíclico da sociedade humana não reconhece o potencial do progresso humano e que estaríamos nos movendo em círculo, como se nossos passos voltassem à origem. Contudo, o verdadeiro movimento do ciclos sociais deve ser comparado a um movimento em espiral, que é circular, mas se movimenta de forma progressiva em direção a uma maior expressão da consciência.

 

No início da história da humanidade, os shudras viviam em confronto com as forças da natureza. Através dos choques com o ambiente hostil e de conflitos entre clãs, que lutavam pela sobrevivência, a mente humana aumentou, paulatinamente, sua complexidade, capacidade e vitalidade. Com isso, a confiança, a bravura e a capacidade de comandar e controlar o ambiente físico e social foram desenvolvidas em alguns seres humanos.

 

No começo, o poder era exercido normalmente pela força física, formando-se, assim, a era das pessoas com mentalidade guerreira. Esse foi o verdadeiro início da sociedade humana, numa forma rudimentar. Unidade, disciplina e senso de responsabilidade desenvolveram-se vagarosamente, na medida em que o sistema de clãs se formou na Idade da Pedra, resultando no começo da sociedade e da estrutura social.

 

Desde a era shudra até o início da era guerreira, vigorou o sistema matriarcado, com a liderança sendo exercida pelas mulheres, as quais representavam seus respectivos clãs. Como o casamento não era ainda uma instituição estabelecida socialmente, a mulher recebia todo o prestígio da sociedade e tinha grande poder de decisão. Essa participação histórica das mulheres foi marcante, pois elas comandaram a sociedade por milhares de anos, desde a Idade da Pedra até o surgimento da era patriarcal (há cerca de 3.500 anos).

 

Devido às lutas das sociedades guerreiras contra as forças da natureza e entre os diferentes clãs, a capacidade intelectual dos seres humanos se desenvolveu. A inteligência dos vipras emergentes resultou nas primeiras conquistas científicas, tais como o uso do fogo, a invenção do arco e da flecha, da agulha e da linha, as técnicas de arado e cerâmica, a domesticação de animais, a agricultura etc. Como resultado desse longo processo, os vipras desfrutaram de um prestígio cada vez maior na sociedade e se tornaram o trunfo mais valioso dos líderes ksattriyas. Os artefatos bélicos se tornaram complexos, e a tática e a estratégia assumiram uma importância maior do que a força e a habilidade. Sem a ajuda dos intelectuais, a conquista de batalhas era impossível.

 

A florescente era ksattriya foi uma era de expansão e conquistas (da pré-histórica até o fim do antigo Império Romano; a dinastia chinesa Chin e a expansão indu-ariana por toda a região do Cáucaso). Na era ksattriya, dava-se muita importância à bravura, à honra, à disciplina e à responsabilidade. Isto tornou a sociedade ksattryia bem organizada e unida.

 

Na segunda metade da primeira era ksattriya, a sociedade passou do sistema matriarcado para o patriarcalismo. Esse novo sistema foi institucionalizado pelo estabelecimento do casamento e da propriedade privada e pela criação das cidades. A liderança saiu dos conselhos tribais para os soberanos guerreiros. Essa transição abriu caminho para o surgimento dos grandes impérios da história antiga: império dos arianos, da Suméria, da Assíria, da Babilônia, da Pérsia, do Egito, da Macedônia (Europa antiga) e de Roma, para mencionar apenas alguns.

 

Com o passar do tempo, os conselheiros intelectuais (ministros) aumentaram sua importância, adquirindo mais poder do que os monarcas. Da mesma forma, as religiões passaram a cumprir o papel então exercido pelas magias tribais, a Igreja (vipra) cresceu, obtendo mais poder do que a realeza, por toda a Europa, e, no Tibete, monges e lamas conquistaram autoridade tanto política quanto religiosa. Com isso iniciou-se a era vipra, a autoridade dos líderes guerreiros tornou-se menos importante e a administração social passou a se basear mais nas escrituras e nas leis. Através de diferentes proibições sociais e religiosas fundamentadas nas escrituras, os intelectuais, que ocupavam cargos de ministro, sacerdote, advogado, senador ou conselheiro, governaram a sociedade e estruturaram sua forma de desenvolvimento.

 

Quando o ciclo social chegou ao estágio vipra, a vida cultural da sociedade floresceu, e os seres humanos alcançaram um nível mais elevado de consciência e desenvolvimento mental. A solidificação das instituições culturais, religiosas e governamentais ocorreu dentro da era vipra; e sob a égide dessas instituições, a ciência, as artes e outros ramos do conhecimento floresceram. As antigas eras budistas da Índia, da China e do sudeste da Ásia, e o crescimento da Igreja Católica, durante a Idade Média, com suas grandes escolas em mosteiros, ilustram isso.

 

Com o decorrer do tempo, a classe dominante torna-se egoísta e mais preocupada com a realização dos privilégios materiais e sociais.

 

Uma das mais poderosas ferramentas usada historicamente pela classe vipra tem sido a difusão de superstições e complexos de inferioridade na mente das outras classes, para perpetuar, assim, seu domínio. A submissão da mulher às regras opressoras é mais uma criação dos vipras do que dos ksattryias. O domínio masculino incutiu nas mulheres complexos de inferioridade, tendo sido a elas negado o direito à educação (na primeira era vipra), tanto na sociedade oriental quanto na ocidental.

 

Enquanto os intelectuais buscavam conforto e privilégios, os mercantilistas gradualmente acumulavam riquezas. Dessa forma, eles se tornaram capazes de comprar terras e empregar os próprios intelectuais para servi-los. Os mercantilistas forneceram um novo dinamismo à sociedade, já que o poder deles aumentou com a criação do novo sistema financeiro, político e social.

 

A habilidade e o pragmatismo dos vaeshyas gradualmente diminuíram a influência das superstições e das instituições decadentes constituídas na última era vipra. Os movimentos protodemocráticos, como a constituição da Câmara dos Comuns na Inglaterra e a Revolução Francesa, levaram a uma lenta diminuição da disparidade social e marcaram a era vaeshya na Europa e em suas colônias. Grandes avanços na arte e na ciência foram também estimulados pela era vaeshya, sob o patrocínio da classe comerciante. Todavia, o imperialismo europeu (e mais tarde o americano e o japonês) surgiram na era vaeshya.

 

Os mercantilistas consideravam tudo ao seu redor, inclusive os seres humanos, como mera ferramenta para aumentar seus lucros. Essa visão começou a se expandir pelo mundo assim que a classe mercantilista, em comum acordo com o Vaticano, passou a utilizar as qualidades marciais dos ksattriyas para colonizar o mundo. O objetivo era simplesmente extrair recursos e escravizar os seres humanos para trabalharem na produção. Dessa forma, todos os países industrializados do mundo foram moldados pela classe mercantilista.

 

Quando começou o declínio da era capitalista, a economia foi forçada a aumentar a eficiência das corporações, visando à maximização do lucro. Com isso, o nível de emprego diminuiu e o poder de compra do trabalhador se deteriorou. Aqueles que têm mentalidade guerreira e intelectual, estão subjugados, na condição de shudras. As oscilações nas bolsas de valores e nos mercados financeiros e a dificuldade crescente de adquirir as necessidades básicas estão criando um ambiente propício para novas mudanças. As pessoas desfavorecidas pelo sistema vaeshya se unirão aos intelectuais e aos guerreiros/militares excluídos pelo atual sistema e irão se erguer e começar a tomar conta das relações econômicas e sociais. Isso significa o fim da era vaeshya e o início de uma nova era shudra. Tecnicamente falando, uma sociedade shudra emerge logo após a queda da ordem vaeshya. Essa era shudra (que é caracterizada como um período de anarquia) dura apenas o tempo necessário para que os ksattriyas tomem a liderança da revolução e solidifiquem o seu poder. Geralmente esse período dura alguns dias ou até mesmo algumas horas.

 

A revolução comunista da Rússia caracterizou esse estágio do ciclo social: o domínio mercantilista terminou devido à revolução dos trabalhadores, resultando em uma nova sociedade dominada pelos militares.

 

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Seção 3:   

Filosofia dos Ciclos Sociais

O movimento dos ciclos sociais está em processo de rotação contínua. Considerando a psicologia das diferentes classes, podemos identificar, na história das nações ou civilizações, o domínio social e administrativo de uma das classes sociais, em eras distintas. Esses ciclos determinam os valores sociais e a psicologia social predominantes. Como regra geral, em cada época, na história de uma sociedade ou nação, apenas uma classe é dominante. Portanto, podemos classificar as sociedades como sendo shudra (trabalhadora), ksattriya (guerreira), vipra (intelectual) e vaeshya (mercantilista, industrial).

As nações e as civilizações, em separado, seguem seu próprio ciclo (ver Apêndice E), enquanto a sociedade global, em todo o planeta, tem um ciclo único, que começou na Idade da Pedra, com a era shudra, e encontra-se agora na era vaeshya.

A filosofia dos ciclos sociais é regida por diferentes princípios, inclusive o de que seus movimentos são sistálticos ou pulsativos. Numa verdadeira análise da história, podemos certamente detectar esses movimentos, contudo, devemos ter em mente que esse processo é dificultado pela influência mútua das civilizações, nos períodos de transição de uma era para a outra, quando os ciclos se misturam.

Em cada espiral do ciclo, existe também um movimento dialético que acarreta o nascimento, o desenvolvimento e o fim de uma era, levando ao nascimento, o desenvolvimento e o fim da próxima era e assim por diante. A duração de uma era, ou de qualquer estrutura social, pode ser ilustrada da seguinte forma:

 

SISTEMA 1

SISTEMA 2

 

 

 

Fase 3

Pausa Mani­festativa

 

 

Fase 7

Movimento Mani­festativo do Sis­tema 2

 

 

 

 

Fase 4

Declíneo

 

 

 

Fase 2

Movi­mento Mani­festa­tivo

 

 

Fase 5

Pausa Estática

Colapso do

Sistema 1

 

 

Fase 1

Pausa

Estática

 

 

 

 

Fase 6

Pausa Mani­festa­tiva

Nova antítese

 

 

Movimento Sistáltico: Na realidade, os ciclos sociais não têm movimentos contínuos para adiante, mas sim movimentos sistáticos (de contração, pausa e expansão). Existem períodos de intenso movimento social seguidos por outros de pausa relativa. Quando a sociedade está num período de estagnação, com pouca vitalidade ou dinamismo, tal estágio é chamado de pausa sistáltica (fase 1). Nesse estágio, novas idéias surgem devido ao sofrimento crescente do povo. Tais idéias formam uma antítese à estrutura estagnada.

Quando tal antítese ganha suficiente força, a estrutura social existente muda fundamentalmente, devido ao dinamismo das novas idéias. Esse estágio inicial de mudança e dinamismo é denominado como movimento “manifestativo” (fase 2). Quando se chega a uma nova síntese, por influência do movimento manifestativo, surge o estado de pausa “manifestativa” (fase 3).

Essa pausa é o apogeu do movimento social, o período de maior vitalidade. A força dessa síntese consiste na vitalidade das idéias na qual é fundamentada. Mas posteriormente, essa vitalidade se deteriora devido à opressão e à exploração crescente da classe dominante sobre as outras classes, causando, assim, estagnação. Então o movimento alcança novamente o estado da pausa sistáltica (fase 5), aguardando o surgimento de idéias novas.

Portanto, todas as eras dos ciclos sociais começam com a fase dinâmica formativa, na qual uma nova vitalidade é infundida dentro da estrutura social. A sociedade alcança um pico sustentável subseqüentemente seguido pelo declínio e a “estaticidade”, geralmente acompanhados de exploração excessiva. Então, surge uma antítese no estágio da pausa sistáltica (fase 6), que surge da varna que dominará a próxima fase do ciclo social.

Tipos de Movimentos Sociais: Um ciclo social tem vários tipos de movimento.                                      

1. Movimento normal é quando ocorrem mudanças de forma natural, ou seja, todas as mudanças e conflitos que não alteram substancialmente a estrutura social básica e política. Os períodos de mudanças mais substanciais são os referidos como evolução e contra-evolução, revolução e contra-revolução.

2. Evolução refere-se aos períodos de transformação social progressiva e dinâmica, seguindo o fluxo do ciclo social. O colapso do comunismo na Europa Oriental e na antiga União Soviética ilustra a evolução social.

3. Contra-evolução é o movimento regressivo do ciclo social (inversão do ciclo social). Exemplos de contra-evolução foram as repressões militares contra os movimentos estudantis e intelectuais, no Brasil, a partir de 1968, e na Argentina, a partir de 1976, que frustrou temporariamente a transição para a era vipra.

4. Revolução são períodos de mudanças dramáticas, caracterizados pela aplicação de tremenda força (quando o ciclo social move-se para adiante). As revoluções dos trabalhadores comunistas (shudras), na Rússia, em 1917, e em Cuba, em 1959, são exemplos de revoluções progressistas, fazendo com que os governantes exploradores (vaeshyas) se expusessem à revolução shudra.

5. Contra-revolução é quando as mudanças revertem o ciclo social do governo da varna anterior. Como exemplo de contra-revolução, podemos citar os esforços feitos pela C.I.A. (serviço secreto norte-americano) para impedir os avanços dos movimentos de libertação na América Latina.

A contra-evolução e a contra-revolução duram pouco tempo; o movimento natural do ciclo social não pode ser interrompido indefinidamente. As contra-revoluções são sempre regressivas, pois elas revertem a sociedade ao estágio do ciclo social em que se estabeleceu a estagnação.

A Influência Mútua das Civilizações: A sociedade humana é formada por muitos grupos, nações e estados — de muitas civilizações antigas e atuais. Essas civilizações e sub-civilizações podem estar às vezes em diferentes estágios de desenvolvimento, e seus contatos entre si afetam o movimento dos seus ciclos sociais.

Por exemplo, muitas sociedades que ainda estavam na era vipra rapidamente mudaram para a era vaeshya sob a influência do colonialismo (como a Índia). Esse tipo de influência mútua torna a análise de um ciclo social mais complexa. Especialmente hoje em dia, as influências mútuas têm se tornado extremamente complicadas. A maior parte das nações tem sido gravemente afetada pela era vaeshya do Ocidente, que começou com o advento do colonialismo e culminou no atual processo de globalização.

A globalização econômica da sociedade vaeshya incitará lutas libertadoras em diversos países, que resultarão na derrocada da estrutura neoliberal. A cultura global humana, que é um aspecto positivo da globalização, provavelmente continuará a crescer mesmo com o término desse sistema explorador.

Revolução sem Violência: Na teoria de PROUT, a morte estrutural de um sistema social não significa a morte de seres humanos. É teoricamente possível que ocorra uma revolução sem derramamento de sangue e que um sistema completamente novo surja após a queda do antigo sistema.

O Papel dos Indivíduos nas Transformações Sociais: A sociedade é composta por um grande números de indivíduos. É possível que o ritmo dessas pessoas siga o ritmo individual na esfera psíquica e na esfera espiritual, mas isso não é possível na esfera física. A síntese dos movimentos de vários indivíduos constitui o movimento social coletivo. O fluxo individual é influenciado pelo fluxo coletivo, pois cada indivíduo se esforça para se adaptar à sociedade.

 

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Seção 4:                    

Uma Nova Visão da História

 

Apesar de a teoria dos ciclos sociais explicar claramente os movimentos sociais, ela precisa ser aprimorada com pesquisas. Uma análise dos fatos históricos é a forma mais adequada para alcançar esse objetivo.

 

Sob uma visão holística, a arte, a política, a economia, a religião, a filosofia, a ciência, a tecnologia, a música, o vestuário e os costumes estão todos integrados e, por isso, devem ser entendidos como expressões da sociopsicologia predominante. Conflitos podem surgir porque nem sempre existe harmonia e consonância absoluta entre essas diferentes expressões humanas. Uma nova psicologia social surge primeiro nas esferas mais sutis — como a arte, a cultura ou a ciência — enquanto na economia e na política, a estrutura social continua a ser influenciada pela antiga psicologia, até que a transformação se complete.

 

Conseqüentemente, num período de transição, não é muito fácil identificar qual é a psicologia social predominante: se anterior ou a mais recente. As expressões que caracterizam a psicologia de uma classe social (varna) podem ser bem diferentes nas diferentes fases de uma era — nascimento, adolescência, maturidade, velhice ou degeneração.

 

Normalmente, a história enfatiza os feitos dos governantes (reis, ministros e líderes políticos), dando a mínima importância ao povo. Por isso, até o presente, sabe-se muito pouco da dinâmica interna das classes governantes.

 

Além disso, devem-se realizar pesquisas históricas, com o objetivo específico de comprovar os ciclos sociais.

A importância dos ciclos sociais como modelos para uma análise da história é reforçada pela facilidade com que encontramos exemplos. Os movimentos de estudantes e intelectuais dissidentes na China e nas antigas nações soviéticas, sem mencionar as várias rebeliões nos antigos países comunistas da Europa Oriental, ilustram que há uma tendência de a era ksattryia (militar) ser seguida pela era vipra. Medidas contra-evolucionárias foram implementadas pelos regimes ksattriyas, mas, conforme está previsto na teoria proutista, estas não poderiam durar indefinidamente. De acordo com a mesma lógica, o comunismo deve entrar em colapso também na China, na Coréia do Norte, em Cuba etc., devido à pressão da classe vipra (estudantes e intelectuais). Mas isso só ocorrerá quando a classe shudra tiver suficiente mobilização e consciência da necessidade de mudanças.

 

Pode-se predizer também que os estados fundamentalistas islâmicos (as sociedades vipras do Irã etc.) tendem a se mover em direção à sociedade vaeshya (da mesma forma que os outros países do Golfo). Contudo, alguns indícios comprovam que poderá haver contra-revolução e contra-evolução fundamentalista (organizada por pseudovipras), como aconteceu no Irã (a ascensão de Ayatullah Khomeini, nos anos setenta) e no Afeganistão mais recentemente. Essa repressão contra o avanço, contudo, será revertida.

 

Um outro item importante a ser considerado é que as nações ocidentais estão prontas para iniciar uma revolução contra a globalização neoliberal. Temos exemplo disso na rebelião zapatista, no México, com os ksattryias (guerrilheiros) conduzindo a revolução shudra. Embora tenha sido temporariamente reprimido pela força vaeshya dominante, pode-se esperar que essa revolução venha à tona novamente e com mais força. Isto ocorreu primeiramente no México por causa da grande disparidade de renda. É importante notar que essas revoluções e mudanças nem sempre ocorrerão através do socialismo ou do comunismo — outras teorias também poderão assumir esse papel.

 

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Seção 5:

Os Sadvipras e a Síntese Social Permanente

 

Vimos que, no decorrer da história, diferentes classes sociais lideram a sociedade, passando de um fase progressista ou dinâmica para uma fase de exploração. Isso acontece devido aos interesses de líderes egoístas, que têm uma visão limitada pela psicologia de sua classe. Por causa desses interesses de grupos, as mudanças de ciclos sociais não ocorrem suavemente, mas sim através de conflitos.

 

Revolução e contra-revolução são movimentos alternados, que muitas vezes levam a sociedade à beira de um desastre e geram muito sofrimento.

Uma questão surge: toda fase de exploração deve ser seguida por uma revolução (física ou intelectual), que cause sofrimento inevitável? Será que, quando uma classe chega ao estágio de exploração, a sociedade deve sucumbir numa fase de estagnação social?

 

A filosofia de PROUT visa ao estabelecimento de uma síntese social que perdure e tenha a orientação de lideranças espirituais e intelectuais. Esses líderes são personalidades chamadas sadvipras (ver apêndice C), que, por seus esforços físicos, mentais e espirituais, desenvolvem as qualidades positivas de todas as classes, tendo também força moral e coragem para lutar contra a injustiça e a exploração.

 

Sadvipras são pessoas que dedicam suas vidas ao bem-estar da sociedade, como expressão do amor despertado na busca da realização espiritual. Elas são capazes de inspirar a sociedade e conduzi-la numa direção sintética e progressista. Se houver um esforço coletivo para alcançar o progresso social (ver “Seis Fatores para o Desenvolvimento e o Progresso” – Apêndice D), a sociedade poderá gerar um número suficiente de sadvipras, os quais poderão liderar uma transformação positiva.

 

A mudança dos ciclos sociais é considerada como inevitável, contudo, se houver orientação de líderes socioespirituais, a progressão dos ciclos sociais poderá ocorrer de forma suave. Os sadvipras são pessoas capazes de aplicar dinamismo e força suficiente ao ciclo social, a fim de acelerar a transição de uma classe social degenerada para a próxima. Eles terão a capacidade e o compromisso de acelerar o ciclo social assim que os sinais de decadência ou exploração social ficarem evidentes, coordenando a transição para a próxima era, de forma positiva. No sentido filosófico, eles são vistos como se estivessem no núcleo dos ciclos sociais, influenciando externamente a progressão em espiral da estrutura da psicologia social.

 

O movimento dos ciclos sociais será desordenado, se não houver a ação dos sadvipras para coordená-los e organizá-los. Do ponto de vista espiritual, a sociedade humana ainda está num estágio primário. Quando os seres humanos puderem, conscientemente, controlar o movimento progressivo da sociedade, coordenando as mudanças de eras das diferentes psicologias sociais, então, se dará o início de uma sociedade humana mais madura. Isto pode parecer com o que Marx e Engels definiram como evolução da história humana do “reino da necessidade” para o “reino da liberdade”.

 

Essa não é uma visão estática das transformações da sociedade, mas sim a busca do movimento dinâmico dos ciclos sociais por uma sociedade progressista e saudável.

 

É importante lembrar que a visão espiritual universalista é a base desta filosofia. PROUT é essencialmente uma estrutura formada para desenvolver o potencial individual e coletivo em todos os níveis — físico, psíquico e espiritual — sintetizados numa sociedade progressista e dinâmica.

 

 

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Leitura adicional:

Human Society Part 2: Todo o livro é dedicado ao estudo da dinâmica dos ciclos sociais.

 

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Capítulo 2